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| A capa é clássica, não? |
O primeiro disco de Don McLean, Tapestry, de 1970, distribuído pela MediaArts, foi praticamente ignorado quando lançado; dizem que McLean foi rejeitado por 34 gravadoras antes de ser aceito por essa pequena gravadora. Em decorrência do sucesso de American Pie, e por ter passado a ser distribuído pela United Artists, foi “descoberto”. É um disco bom – nem tanto quanto o posterior –, com belas canções como Castles in the Air (foi regravada pelo autor em 1981). Notavam-se algumas influências da música folk americana e foi esse o caminho trilhado, influenciado por Bob Seeger e Bob Dylan, mas mostrou personalidade desde o início da carreira.
Gerações mais recentes – a música tem 40 anos – talvez não conheçam American Pie. Alguns fãs de Madonna devem se lembrar de sua gravação. Há até um videoclipe. É aquele que tem a bandeira americana como cenário. Enquanto canta, pessoas de todos os estratos sociais, econômicos e sexuais são mostradas na tela dividida em dois. É uma bobagem. Um comentário no YouTube a acusa de ter esquartejado um clássico. É verdade: perto do que significa a música, a de Madonna é sacrílega. Ela não entendeu nada.
A música American Pie é um épico; McLean foi ambicioso. No que se tornou seu primeiro hit, pretendeu, em oito minutos e 36 segundos, compor o seu Odisseia. Nem tanto Homero, o americano sintetizou em longo poema um pouco dele (entregador de jornais de 13 anos que, “em cada jornal entregue, más notícias na porta”), a morte de um ídolo da música: “não consigo me lembrar se chorei/ Quando leio sobre a viúva dele/ Mas algo me comoveu profundamente/ O dia em que a música morreu.” “Então, bye, bye Miss American Pie/ Dirigi meu Chevy até a barragem/ Mas a barragem estava seca/ E eles, bons garotos estavam bebendo whisky e centeio (rye)/ Cantando ‘this will be the day I die./ ‘This will be the day I die’”. Era uma referência clara ao ídolo Buddy Holly, morto em acidente aéreo, com Richie Valens. A referência é a letra de That’ll Be the Day: “Well, that’ll be the day, when you say goodbye/ Yes, that’ll be the day, when you make me cry/ You say you’re gonna leave, you know it’s a lie/ ’Cause that’ll be the day when I die.’
Os versos de American Pie são um compêndio referencial à música depois de Holly. “Agora, por dez anos/ E o musgo cresce numa pedra rolante/ Mas não era assim antes/ Quando o bobo da corte cantou para o rei e rainha/ Vestindo um casaco emprestado de James Dean”; “Enquanto Lênin lia um livro de Marx/ O quarteto praticava no parque”; “Helter Skelter num verão abafado”; “Oh, e estávamos todos num lugar,/ Uma geração perdida no espaço/ Sem tempo para recomeçar/ Então, vamos, Jack, seja ágil, seja rápido/ Jack Flash sentou num castiçal? Porque o fogo é o único amigo do diabo./ […] para iluminar o ritual de sacrifício/ Eu vi Satanás rir com satisfação.” [Jumpin’ Jack Flash, Sympaty for the Devil e (I Can’t Get No) Satisfaction, composições dos Rolling Stones].
Lembrei de Don McLean ao ouvir The Grave, a penúltima do disco. Acho American Pie uma das músicas do século, mas sem vacilar, incluiria essa. É descritiva, também. Seu início é grave. A primeira estrofe é cantada a capella: “O túmulo que cavaram tinha flores/ Recolhidas das encostas em brilhantes cores de verão/ E a terra marrom esbranquiçada na borda de sua sepultura/ Ele se foi. Um violão abre a segunda estrofe e as imagens vão se desenhando em nossas mentes à medida que McLean as descreve, num crescendo dramático que culmina num quase grito quando canta “The earth! The earth! the earth is my grave. A última estrofe é uma coda que se desvanece num “His gone” agônico.
American Pie
The Grave

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