quinta-feira, 6 de outubro de 2011

American Pie, o épico de Don McLean

A capa é clássica, não?
O LP (é, naquele tempo, eram long-playings, em vez de CDs) American Pie foi lançado em 1972. Rapidamente, atingiu o topo das paradas nos EUA e no Canadá. Ficou quatro semanas em primeiro lugar no ranking da revista americana Billboard. Em 2001, a música título – American Pie – foi eleita a “top five” num ranking das 365 melhores músicas do século XX pela Recording Industry Association of America e a National Endowment of the Arts. Curiosamente, na lista das 500 melhores músicas de todos os tempos que saiu pela revista Rolling Stone, da edição de dezembro de 2004, está ausente. No livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, organizado por Robert Dimery (Editora Sextante, 2007), American Pie está entre os eleitos a serem ouvidos pela humanidade, antes de morrer; portanto, se você ainda não morreu e não conhece esse disco, arrume um jeito de conhecê-lo.

O primeiro disco de Don McLean, Tapestry, de 1970, distribuído pela MediaArts, foi praticamente ignorado quando lançado; dizem que McLean foi rejeitado por 34 gravadoras antes de ser aceito por essa pequena gravadora. Em decorrência do sucesso de American Pie, e por ter passado a ser distribuído pela United Artists, foi “descoberto”. É um disco bom – nem tanto quanto o posterior –, com belas canções como Castles in the Air (foi regravada pelo autor em 1981). Notavam-se algumas influências da música folk americana e foi esse o caminho trilhado, influenciado por Bob Seeger e Bob Dylan, mas mostrou personalidade desde o início da carreira.

Gerações mais recentes – a música tem 40 anos – talvez não conheçam American Pie. Alguns fãs de Madonna devem se lembrar de sua gravação. Há até um videoclipe. É aquele que tem a bandeira americana como cenário. Enquanto canta, pessoas de todos os estratos sociais, econômicos e sexuais são mostradas na tela dividida em dois. É uma bobagem. Um comentário no YouTube a acusa de ter esquartejado um clássico. É verdade: perto do que significa a música, a de Madonna é sacrílega. Ela não entendeu nada.

A música American Pie é um épico; McLean foi ambicioso. No que se tornou seu primeiro hit, pretendeu, em oito minutos e 36 segundos, compor o seu Odisseia. Nem tanto Homero, o americano sintetizou em longo poema um pouco dele (entregador de jornais de 13 anos que, “em cada jornal entregue, más notícias na porta”), a morte de um ídolo da música: “não consigo me lembrar se chorei/ Quando leio sobre a viúva dele/ Mas algo me comoveu profundamente/ O dia em que a música morreu.” “Então, bye, bye Miss American Pie/ Dirigi meu Chevy até a barragem/ Mas a barragem estava seca/ E eles, bons garotos estavam bebendo whisky e centeio (rye)/ Cantando ‘this will be the day I die./ ‘This will be the day I die’”. Era uma referência clara ao ídolo Buddy Holly, morto em acidente aéreo, com Richie Valens. A referência é a letra de That’ll Be the Day: “Well, that’ll be the day, when you say goodbye/ Yes, that’ll be the day, when you make me cry/ You say you’re gonna leave, you know it’s a lie/ ’Cause that’ll be the day when I die.’

Os versos de American Pie são um compêndio referencial à música depois de Holly. “Agora, por dez anos/ E o musgo cresce numa pedra rolante/ Mas não era assim antes/ Quando o bobo da corte cantou para o rei e rainha/ Vestindo um casaco emprestado de James Dean”; “Enquanto Lênin lia um livro de Marx/ O quarteto praticava no parque”; “Helter Skelter num verão abafado”; “Oh, e estávamos todos num lugar,/ Uma geração perdida no espaço/ Sem tempo para recomeçar/ Então, vamos, Jack, seja ágil, seja rápido/ Jack Flash sentou num castiçal? Porque o fogo é o único amigo do diabo./ […] para iluminar o ritual de sacrifício/ Eu vi Satanás rir com satisfação.” [Jumpin’ Jack Flash, Sympaty for the Devil e (I Can’t Get No) Satisfaction, composições dos Rolling Stones].

Lembrei de Don McLean ao ouvir The Grave, a penúltima do disco. Acho American Pie uma das músicas do século, mas sem vacilar, incluiria essa. É descritiva, também. Seu início é grave. A primeira estrofe é cantada a capella: “O túmulo que cavaram tinha flores/ Recolhidas das encostas em brilhantes cores de verão/ E a terra marrom esbranquiçada na borda de sua sepultura/ Ele se foi. Um violão abre a segunda estrofe e as imagens vão se desenhando em nossas mentes à medida que McLean as descreve, num crescendo dramático que culmina num quase grito quando canta “The earth! The earth! the earth is my grave. A última estrofe é uma coda que se desvanece num “His gone” agônico.


American Pie




The Grave

Nenhum comentário:

Postar um comentário