segunda-feira, 26 de julho de 2010

Black & White: Louis Armstrong e Jack Teagarden

Louis Armstrong é o jazz. Muitos podem não concordar e eleger Charlie Parker, Miles Davis, Dizzie Gillespie, Sidney Bechet ou qualquer outro músico. Armstrong não viveu 70 anos mas, desde o início do século, foi agente de várias transformações, se não “revolucionárias” como o free jazz de Ornette Coleman ou o bebop, diria que foram “silenciosas” com seu sopro “incendiário” e vibrante, num sentido em que não se constituíram em rupturas radicais e sim, de mudanças evolutivas.

Filho de prostituta, um mal handicap para o futuro (a passagem pelo reformatório por ter dado um tiro para o ar no Ano-Novo, quando tinha 12 anos), seu talento explosivo se anunciou por si. Tocou na banda de “King” Oliver e na de Fletcher Henderson. Foi capital sua união musical/matrimonial com Lil Harding , pianista e compositora.  Ela teve aprendizado formal no piano e chegou a frequentar a Fisk University cursando música. Foi importante para o aperfeiçoamento do cornetista e trumpetista, instando-o a tocar um pouco de música clássica, e a se desligar de “King Oliver”, que o pagava mal. Lil e o marido formaram, na década de 1920, o Hot Five e Hot Seven. A banda era constituída pelo grande clarinetista Johnny Dodds, o trombonista Kid Ory e o banjo de Johnny St. Cyr.

As gravações dos Hot’s são clássicas. Tocou posteriormente com o pianista Earl “Fatha” Hines, já separado de Lil, e na década de 1940 montou o Louis Armstrong Jazz Stars. Personalidade carismática, foi convidado para atuar em alguns filmes de Holywood e, a essa altura,  era figura de proa na cena musical. Trumpetista de primeira, foi um grande cantor e deixou registrada a sua marca com a voz rascante, “malandra”, cheia de bossa, alternada por scats maravilhosos.

 Pode até ser que tal popularidade tenha eclipsado um pouco sua importância na história do jazz. Até críticos conceituados minoram a contribuição de Armstrong, acho que, por preconceito à figura e a popularidade que alcançou. Louis pode ser considerado o pai – e mãe – dos cantores, influenciando desde os antigos até gerações posteriores. Ficou tão conhecido e alcançou vendagens milionárias com Hello Dolly, em plena época de Beatles, Rolling Stones e cia. Seu What a Wonderful World é mundialmente conhecido e utilizado à exaustão em trilhas sonoras e propaganda. É certo que os brancos americanos venderam uma imagem de Armstrong muitas vezes, caricata e até a de um negro alienado de sua condição racial, o que é mentira, pois ele, nascido pobre, filho de prostituta e pai que sumiu, tutorado por uma bondosa família judia, preso aos 12 anos e proibido de frequentar certos lugares tinha consciência muito bem de quem era. Contribuiu para organizações de direitos civis e para a fundação de Martin Luther King, Jr. Fez isso sem alarde. Não precisava. Satchmo, como era também conhecido, excursionou pela África, Europa e Ásia sob os auspícios do Departamento de Estado Americano e foi criticado por isso. Não foi o único e, convenhamos, esse programa, claro, era uma forma de propagação cultural do que tinham de mais forte, a música. Os brasileiros tiveram a chance de conhecer muitos músicos de jazz dessa forma. Quem imaginaria que algum empresário fosse convidar, por exemplo, a cantora Chris Connor para se apresentar em terras nativas?


Em um dos primeiros discos que ouvi de Armstrong, ainda na era dos LPs, fiquei encantado com algumas faixas em que cantava com o trombonista Jack Teagarden (era branco, filho de alemães, mas tinha cara de índio).  Perdeu-se no tempo. Custou-me localizar alguma gravação dos dois juntos em CD. Descobri que havia o registro das apresentações ao vivo no Town Hall, em Nova York, e no Boston Hall Symphony Hall, de 1947, em edição lançada na Espanha. São dessas apresentações a antológica Rockin’ Chair, cantada pelos dois. Ouçam-na, e espero que tenham o mesmo prazer que tenho ao ouví-la:

Rockin’ Chair:



Ouçam também St. James Infirmary:

2 comentários:

  1. Olá, Guen. Não sabia dessa sua bagagem musical, mas desconfiava de algo próximo disso apenas pelo nosso pouco tempo de contato. Até porque o tema era outro. Mas fiquei mais do que impressionado pela profundidade de seu conhecimento. O seu lugar é aqui... e não lá... rsrs. Apesar de, lá, vc tb ter me exibido sua versatilidade artística. O blog inteiro está muito interessante e agradável... gostoso... como alguém se referiu abaixo. Vou divulgá-lo. A propósito, escolhi escrever aqui pq já imitei Satchmo em um concurso de karaokê (vale-tudo)... sem dublar, héim... rsrs. E, pior, ganhei!! Abs.

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  2. Silvio, que bom! Divulgue para os seus amigos. Comecei na louca e tardiamente, mas escrever é uma das minhas diversões preferidas. Descobri isso.

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