Quando Sarah McKenzie lançou seu primeiro álbum, We Could Be Lovers, em 2015, é bem possível que tenha passado pela cabeça dos diretores da gravadora Impulse de que ela poderia ser uma nova Diana Krall.
A canadense “descoberta” por Ray Brown estreou com Steppin’ Out pelo selo canadense Justin Time, em 1983, e o sucesso foi tão grande que a americana GRP Records lançou no mercado americano. Diana Krall era um daqueles talentos que surgem de tempos em tempos. Apesar da diferença de formatos – Nat “King” Cole foi introdutor do formato trio com a guitarra no lugar do contrabaixo – a banda, formada por Diana Krall, John Clayton e Jeff Hamilton lembrava as primeiras gravações em que Cole, pelo estilo da combinação piano/voz.
Em 2015, a canadense já era famosíssima, com fãs fanáticos mundo afora. Devido ao sucesso, depois de ter passado pela Impulse, nesse tempo era do cast do selo Verve Records. Para a Impulse, quem sabe, ao lançar Sarah McKenzie, como disse no primeiro parágrafo, podem ter pensado que tinham uma nova Diana Krall na mão.
Sarah, depois da formação inicial na Australian Academy of Performing Arts mudou-se para os Estados Unidos e foi estudar na Berklee School of Music. Tal como Diana, era loura, bonita, compunha, tocava piano e cantava.
Sarah não estourou como Diana. De 2015, quando lançou seu primeiro álbum, Without You é o sexto lançamento na carreira. Desde 2017, quando foi convidada para se apresentar na inauguração do clube Blue Note, no Rio de Janeiro, fazia parte de seus planos um dia fazer um álbum “brasileiro”. Curiosidade: fez uma aparição no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da TV Globo.
No início da pandemia da Covid entrou em contato com o violonista brasileiro radicado nos Estados Unidos Romero Lubambo, que já havia participado de Paris in the Rain (Impulse, 2017). Falou também com Jacques Morelenbaum, que tinha conhecido quando veio ao Brasil. Com os dois, em 2020, de forma remota, fizeram uma gravação de Corcovado e disponibilizaram no Facebook. Tiveram 1,7 milhão de acessos. Estava dado o primeiro passo para o álbum que se chamaria Without You, que é a oitava faixa, composição dela com letras de Lubambo. Nela temos uma das participações de Andy Sheppard, aqui fazendo um solo na flauta.
Com a adição do baixista Geoff Gascoine, o baterista Peter Erskine (ex-Weather Report), o percussionista brasileiro Rogerio Boccato e a participação do saxofonista e flautista Bob Sheppard, o álbum tem um total de quatro composições de Sarah, com destaque para o suingado Quoi, Quoi, Quoi, Quoi e o resto com standards brasileiros, como Gentle Rain, faixa inicial, Corcovado, Fotografia, Once I Loved, Dindi, Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Bonita e Modinha, ou seja, Antônio Carlos Jobim, com uma pitada de Luiz Bonfá.
Além de Quoi, Quoi, Quoi, Quoi, as composições de McKenzie são “brasileiras”. The Voice of Rio é uma canção sessentista com o piano bem ao estilo da época e o violão de Lubambo. Mean What You Say vai na mesma toada. É meio uma samba bossa nova com um solo do violonista na medida exata.
Ao som do violoncelo de Morelenbaum e o violão de Lubambo, Gentle Rain abre com majestade o disco. McKenzie, como Diana Krall, sabem combinar muito bem a voz, se acompanhando ao piano e fazendo solos de muito bom gosto. Corcovado, a seguir, começa com o solo de Morelenbaum. É impressionante como ele soube imprimir uma marca. É muito fácil reconhecer o seu violoncelo em suas participações, seja com Caetano Veloso ou Ryuichi Sakamoto. Fotografia e Once I Loved You seguem na mesma toada. Nesta última destaca-se o sensível acompanhamento de Lubambo, com um solo muito bonito. É voz e violão, que realçam a melancolia da música. Esses clássicos da bossa nova são atemporais mesmo. Podem ser interpretados pela milésima vez por cantores e músicos diferentes e sempre lembraremos de seu compositor. É o caso de Wave e Dindi. Nesta última, Sarah canta esplendidamente, acompanhada por seu piano de poucas notas. A entrada do violão e o som personalíssimo de Morelenbaum são o destaque, com o belíssimo solo de Sheppard. Há um certo frescor que são intrínsecos às criações dessas composições.
É difícil ser original com uma canção tão tocada. A Garota de Ipanema é uma das cinco mais executadas de todos os tempos. Bem que tentam. Na metade dela, é apenas o violão, a percussão de Rogerio Boccato, com acordes ao piano privilegiando as notas médias. Após um átimo de silêncio, entra o cello e Sarah repete algumas vezes “she doesn’t see”. A seguinte é aquele outro clássico que até os russos devem saber de cor: Chega de Saudade. Sarah canta a parte inicial em português, canta parte em inglês e volta para o português.
Não consigo ouvir Dindi e Bonita sem lembrar de Sarah Vaughan. As interpretações de Dindi que vou lembrar sempre são a da americana, um pouco pelo jeito que entoa o nome Dindi e a de Sylvia Telles, que acho primorosa. A de Sarah é esquecível. A faixa final, Modinha é uma daquelas “torch songs” clássicas. É preciso uma certa dramaticidade, como a de Elis Regina em Elis & Tom, e a campeã de todos os tempos, a de Nana Caymmi. A de McKenzie é cantada em português sem sotaque, apenas ela e o piano. Vamos dar um desconto: é um bom fecho para a sua aventura brasileira.
Ouça o disco:

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