quarta-feira, 29 de abril de 2026

“A Time for Love” é o títulodo novo álbum de Stacey Kent

Não é de se estranhar que Stacey Kent tenha se lançado profissionalmente quando tinha pouco mais de 30 anos. Talvez tivesse outros objetivos. Formou-se em Literatura Comparada na Sarah Lawrence College em Nova York. Depois foi morar em Londres e estudou na Guildhall School of Music and Drama. 

Na escola, conheceu Jim Tomlinson, com quem se casaria. Passaram a se apresentar em clubes, que lhe deu uma boa cancha. Quando lançou o primeiro disco, pelo selo Candid, nem parecia uma estreante. Isso fica claro desde a primeira audição de Close Your Eyes (Candid, 1997). Acompanhada por Jim Tomlinson, o guitarrista Colin Oxley, egresso da Guildhall também, o pianista David Newton, Andrew de Jong Cleyndert (baixo) e Steve Brown (bateria), Stacey revelava-se uma intérprete com personalidade logo na primeira faixa: More Than You Know.

Ouça More Than You Know. Quer melhor apresentação da qualidade de Stacey Kent?

De 1997 até 2026 são mais de duas dezenas de discos lançados, todos muito bons. Seu repertório é amplo e variado. É a única cantora que domina vários idiomas com perfeição: em inglês, sua língua nativa, em francês, que aprendeu criança e aperfeiçoou na faculdade, e em português, que aprendeu e aperfeiçoou com o poeta português Antônio Ladeira. A ligação com o português vem, antes de mais nada, de sua paixão pela música brasileira, despertada ao ouvir o álbum Getz/Gilberto (Verve, 1964). 

A surgimento da Bossa Nova foi um acontecimento marcante no cenário musical americano, em proporções diferentes, tanto quanto a do rock britânico, com a primeira excursão dos Beatles.Houve a famosa apresentação dos brasileiros no Carnegie Hall, em Nova York. Foi um sucesso enorme o disco do saxofonista britânico Stan Getz com João Gilberto e Astrud Gilberto. Logo depois todo mundo tocava ou cantava Bossa Nova. Nem o maior cantor de todos os tempos a ignorou. Apresentou Jobim em seu programa de TV e gravou Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (Capitol, 1967). 

Sinatra não ousou cantar em português. Suas interpretações são com versões de Ray Gilbert. Tom Jobim se lamentou muitas vezes por isso. Tanto Gilbert e outros que fizeram as versões ficaram com 50% dos direitos autorais. Ficaram milionários sem fazer força. Ao contrário de Sinatra, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, as maiores cantoras da geração, resolveram cantar algumas composições em português. Por mais geniais que foram, dói nos ouvidos. Em anos mais recentes temos intérpretes americanos que cantam em português, como Kurt Elling, Diana Krall, Carol Welsman, Esperanza Spalding e Gretchen Parlato, até com certa competência. Mas, como Stacey, ninguém. 

A paixão de Kent pelo Brasil é recíproca. Deve ter feito ao menos uma dezena de apresentações aqui. Fora isso tem álbuns com Marcos Valle (Live at Birdland – New York City, 2013Ao Vivo Comemorando 50 anos de Marcos Valle) e Roberto Menescal (The Changing Lights, 2013). 

Desde a pandemia da Covid (2020-2023), Stacey tem lançado discos com menor frequência. Nesse período, em dezembro de 2021 saiu Songs from Other Places, acompanhada apenas pelo marido e produtor Jim Tomlinson – sax e flauta – e o pianista Art Hirahara.

Summer Me, Winter Me é de 2023. A base continua a mesma, dessa vez acrescida de uma banda e uma formação camerística em alguns números.Nesse álbum, que mereceria uma postagem separada, tem algo que merece uma observação. Summer Me, Winter Me, Under Paris Skies, If You Go Away são versões em inglês de canções francesas. A última faixa é Ne me quite pas, de Jacques Brel, a versão original de If You Go Away.

Grande interpretação do clássico de Jacques Brel, com o belo piano de Art Hirahara.

Maturidade. Em março completou 61 anos. É uma idade em que não é mais preciso prestar satisfação a ninguém. O tempo pode correr mais lento (ou não) e é possível deixar a pressa de lado. 

A combinação com a gravadora era de que um novo álbum seria lançado em 2025. Aconteceram alguns contratempos. Por ter sido anunciado nas redes sociais, a solução foi a de lançarem singles em um EP intitulado A Little Time for Love enquanto não se completassem as gravações. Finalmente, em abril de 2026 disponibilizou-se A Time for Love.

Pelo título, fica clara a concepção. É intimista. Segue a linha de Some Other Places. Kent é acompanhada apenas por Jim Tomlinson e Art Hirahara. O ecletismo dela não se resume apenas ao repertório, em que convivem música francesa, brasileira, italiana e de língua inglesa. Como vários outros intérpretes contemporâneos, incorpora músicas compostas depois dos anos 1960, quando o jazz e os musicais do teatro americano deixam de ser tão populares. No disco recente, o standard mais antigo é Lucky to Be Me, de Leonard Bernstein, Adolph Green e Betty Comden, de 1944. The Shadow of Your Smile e A Time for Love, ambas do genial Johnny Mercer e letra de Paul Francis Webster, são da década de 1960, respectivamente, de 1965 e 1966. Trains and Boats and Planes, de Burt Bacharach e Hal David, é de 1965

As associadas ao pop são God Only Knows, de Brian Wilson, e  As, de Stevie Wonder, do clássico Songs in the Key of Life (1976). Sobre incluir temas não considerados standards, Kent, em entrevista feita por Sergio Martins (OESP, 25/04/2026), afirma: “Tinha acabado de me apresentar no Ronnie Scott’s, em Londres, quando um senhor chamou a minha atenção por eu ter cantado You’ve Got a Friend, de Carole King – uma música que adoro e há tempos faz parte do meu repertório. Ele disse então que Billie Holiday jamais teria interpretado You’ve Got a Friend. Respondi então que ela nunca gravou porque trata-se de uma canção que foi composta doze anos depois da morte dela. Mas provavelmente faria parte do repertório de Billie caso ainda estivesse viva. Porque é uma grande música e Billie era uma intérprete tão comovente que certamente se interessaria por You’ve Got a Friend.

Nas composições que não são na língua inglesa, Stacey revisita La javanaise, de Serge Gainsbourg, canta E la Chiammo Estate, de Bruno Martino, e Carinhoso.

É difícil destacar as melhores. Na minha opinião, vale destacar God Only Knows – a primeira vez que a ouvi com um cantor associado ao jazz foi com John Pizzarelli em uma apresentação no Bourbon Street há mais de quinze anos –, Trains and Boats and Planes, What Goodbye Is For, única do marido Jim Tomlinson,  As, de Wonder, a mais animada do disco, La javanaise, com o duo teclado e flauta, e, naturalmente, Carinhoso.

Uma última observação. Stacey Kent é cantora de voz pequena, sem arroubos. É a sua grande qualidade. Em uma publicação no Facebook dia que sua voz é a pela qual se expressa. “Existe o canto operístico, existe o canto folk, existem todas essas diferentes abordagens para a voz humana. […] é ótimo que existam. A minha é mostrar a minha voz natural. O estilo é uma abordagem muito natural, e isso porque a minha metaé alcançar as pessoas de uma forma muito humana e direta. Mas isso me lembra certas coisas, como a maneira como um pai ou mãe fala com o filho, como um amigo íntimo fala com alguém próximo. É essa linha direta entre as pessoas”. Perfeito, não. Stacey nos toca diretamente, como se estivesse cantando para nós, humanos encantados por ela.

Ouça o novo álbum.

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