quinta-feira, 27 de junho de 2019

O manifesto de John Coltrane


“Essas crianças inofensivas, inocentes e lindas foram as vítimas em um dos crimes mais brutais e trágicos já praticados contra a humanidade. E, hoje, de pé, sobre os restos destas lindas e amadas garotas, parafraseio as palavras de Shakespeare: Boa noite princesas, boa noite àquelas que simbolizam um novo dia, e que o voo dos anjos as levem ao descanso eterno”, foram as palavras de Martin Luther King, Jr.

Na tarde de 15 de setembro de 1963, suprematistas brancos cometeram um atentado em uma igreja batista, em Birmingham, Alabama. Quatro membros da Klux Klux Klan colocaram ao menos 15 bastões de dinamite sob as escadas da igreja. Na explosão, quatro meninas morreram e várias ficaram feridas. Esse incidente é um dos marcos da luta pelos direitos civis.

Pelo que se sabe, John Coltrane, sujeito de poucas palavras, nunca se manifestou acerca da segregação racial, ele, que nasceu em Hamlet, Carolina do Norte, estado sulista, com uma presença significativa de negros, que trabalharam em plantações de algodão e tabaco.

Seu silêncio, porém, nunca significou que ignorasse a situação dos negros e muito menos a luta pelos direitos civis. Três meses depois do terrível atentado, na tarde de 18 de novembro entrou no Rudy Van Gelder’s Studio e gravou “Alabama”, com seu quarteto, constituído por McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones. Foram quatro tomadas e a versão final foi incluída no álbum “Live at Birdland”. A música, em andamento lento, capta a tristeza dolorosa sobre a tragédia e é também um manifesto contra a injustiça humana e a luta dos negros pelos seus direitos.

John Coltrane nunca disse algo sobre “Alabama”. Seus sentimentos sobre o triste episódio nunca foram manifestados verbalmente. Foram manifestadas em forma de notas musicais e, provavelmente, lembrou-se das palavras de Martin Luther King, Jr. ao compô-la.


Veja o quarteto de Coltrane a executar “Alabama”.


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