quinta-feira, 28 de julho de 2016

A voz única de Nancy Harms

Com exceção das clássicas Billie Holiday, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, em patamares próximos, e dentre menos incensadas, temos Carmen McRae, Dinah Washington, Nancy Wilson, Betty Carter, Anita O’Day, Chris Connor, Doris Day, June Christy, Shirley Horn e centenas – ou serão milhares? – de outras que podem estar entre as preferidas da cada apreciador de música. Tem para todos os gostos e também para os desgostos. Entre cantores, o número de preferências diminui bastante. Essa diferença talvez esteja no mito de que vozes irresistíveis são as das sereias e até agora não inventaram alguma do tipo transgênero.

Dentre as que passo a conhecer devido a uma incurável curiosidade por vozes, a que me enfeitiça por hora é a de Nancy Harms. Garanto que quase ninguém a conhece, ou em caso afirmativo, não é há muito tempo. No número de junho da Downbeat, há uma crítica de Bob Protzman em que dá quatro estrelas para um máximo de cinco a Ellington at Night (Gazelle, 2016). Escreve: “A voz é maravilhosa, mas…” É. Tem um “mas”. Diz que, às vezes, perde o registro emocional do que interpreta e completa: “No entanto, Harms é uma original e pode – e deve – percorrer um longo caminho.” Há controvérsias. Eu não concordo.

Mas Protzman tocou no ponto. Nancy Harms é original. Não vai pelo caminho que parece pautar a carreira de um monte de cantoras. É o que Bridget A. Arnwine, do site AllAboutJazz, a propósito de In the Indigo (Gazelle, 2010) escreve: “Ela não grita quando canta e não tenta reinventar Billie Holiday, Dinah Washington ou Ella Fitzgerald; ela tem sua própria voz e isso é o suficiente.”

Mais ou menos semelhante é a percepção de Stephen Holden em texto no New York Times. “Por trás de seus maneirismos de menina, Ms. Harms revelou a determinação de uma mulher forte, independente, que sabe o que quer e se recusa a venerar antigos ídolos do jazz. A impressão final deixada por Ms. Harms foi a de uma mulher enigmática em seu mistério criando seu próprio caminho”, foi o que afirmou depois de tê-la visto em uma apresentação em Nova York.

Uma cantora promissora
Uma das razões de Harms estar no terceiro disco e não ser tão conhecida, pode ser a de que tenha se mudado para um centro maior há pouco tempo. Nasceu e cresceu em Clara City, Minnesota, uma pequena cidade perdida no meio oeste americano. Quando percebeu que poderia perseguir a carreira de cantora profissionalmente, mudou-se para Minneapolis, em 2006.  Passou a apresentar-se em clubes e lançou o álbum In the Indigo em 2009. Nesses três anos, construiu uma sólida reputação, mas que não ultrapassava os limites de Minneapolis.

As coisas mudaram a partir de sua ida a Nova York. Apresentou-se primeiro no Bar Next Door, em Greenwich Village, e gravou Dreams in Apartment. Como resultado, foi convidada a cantar no Birdland e em outros lugares como Los Angeles, Copenhagen, Oslo e Paris.

Seus álbuns
Para os que desejam comprar algum disco de Nancy, para conhecê-la melhor, qualquer um dos três é muito bom. Seu de estreia, In the Indigo, nem parece de estreia. É ótimo, a começar por Bye Bye Blackbird, excepcional. 

Veja o clipe oficial.



A voz de Harms se destaca sobre as notas iniciais de um contrabaixo. É cantada em andamento lento com uma instrumentação inspirada, com o trompete de Kelly Rossum e o piano de Tanner Taylor. Fazem parte outros standards como Softly as in a Morning Sunrise, Cry Me a River, Blue Skies, On a Clear Day (You Can See Forever), Reach for Tomorrow, composições próprias (In the Indigo) e um tema mais pop (Great Indoors, de John Mayer).

Dreams in Apartments vai na mesma toada e tem clássicos matadores como Mood Indigo, Never Let Me Go, It Could Happen to You e Midnight Sun, com interpretações espetaculares. O título é bem sugestivo e representa a sua mudança para Nova York. Conta também com composições de Nancy, como Weight of the World, Out of Comfort, And It’s Beautiful e Something Real.

A melhor é sua interpretação de Mood Indigo.



Never Let Me Go é outra muito boa. Essa é de uma apresentação, pouco diferente da versão do disco.



Veja também Harms a cantar Midnight Sun.



Harms é boa compositora também. Ouça And It’s Beautiful, com belo piano de Aaron Parks e solo de Wycliffe Gordon.



Weight of the World, a canção de abertura é também de Nancy, em parceria com Arne Fogel.



Pelo título Ellington at Night é possível imaginar. Fora Troubled Waters, de Sam Coslow e Arthur Johnston, o repertório é todo de Duke Ellington, Billy Strayhorn e parceiros. O álbum difere do padrão por conter não apenas temas batidos como Lush Life e Prelude to a Kiss.


Ouça Lush Life. É tudo de bom.



Vela o vídeo oficial de I Like the Sunrise. O piano é de Jeremy Siskind. 



Ouça I’m Beginning to See the Light.

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