A África do Sul é o único país que incorporou o nome do continente ao qual pertence. A ironia nisso era ser um país de maioria negra comandado por brancos e, pior, tendo a população que lhe deu origem ser discriminada de forma brutal. A palavra “apartheid” foi criada pelos holandeses. Curiosamente, é o mesmo povo que teve papel importante na colonização dos Estados Unidos. Eram resquícios do colonialismo. Conflitos são bom geradores de manifestações artísticas. No caso da música, a maior contribuição do século XX na música americana vem das vozes oprimidas dos negros que criam o jazz e o blues. O blues é o lamento do negro escravizado nos campos de algodão. Dos campos às cidades, a música se transforma. O jazz nasce aí.
O que é considerado puramente americano tem origem no canto dos negros e na música de imigrantes judeus como George Gershwin e Irving Berlin. Em movimento dialético o jazz penetra em outros mundos e universos. Em algum ponto, o círculo se fecha. É quando o jazz passa a ser ouvido pelo povo que lhe deu origem.
No contexto urbano da África do Sul despontam os Jazz Epistles, inspirados pelo som dos “jazz messengers” de Art Blakey. Não dura muito, mas gravam um disco. Dois deles, em pouco tempo, tornam-se conhecidos fora de seu país: o pianista Dollar Brand e o trompetista Hugh Masekela.
Nascido e registrado com o pomposo nome de Adolph Johannes Brand, ao profissionalizar-se como músico ficou simplesmente Dollar Brand. Os negros eram severamente segregados pela minoria branca. Em março de 1960, cerca de seis mil negros fizeram um protesto contra a obrigatoriedade de portarem o “pass law”, que era uma espécie de salvo conduto para circularem em determinadas áreas. A manifestação foi reprimida e 69 negros foram mortas pela polícia. Diante desses acontecimentos bárbaros, Masekela partiu da África. Brand ficou por mais um tempo, mas fez o mesmo.
O trio de Dollar Brand recebeu boa acolhida na Europa. Um fato ajudou-o. Brand havia emigrado em 1962 com a namorada (branca) Sathima Bea Benjamin. Ela conheceu Duke Ellington, que então excursionava pela Europa, e convenceu-o a ir a uma apresentação de Brand em um clube de Zurique. Deu tão certo que Sathima gravou pela Enja o álbum A Morning in Paris (Enja, 1963) contando com a participação do americano, e ele lançou o LP Duke Ellington Presents The Dollar Brand Trio. Com um padrinho desses, o caminho estava aberto.
No fim dos anos 1960, converteu-se ao islamismo e mais uma vez trocou de nome: Abdullah Ibrahim. Aparentemente, a música continuou a mesma. Até onde sei, não trilhou os caminhos da miltância política como seus pares norte americanos e nem fez tanto barulho na mídia como Muhammad Ali. Foi uma conversão silenciosa e continuou fazendo uma música com raízes no jazz americano. Nos títulos de suas composições, em sua maioria, percebe-se que sua inspiração está fortemente calcadas no continente em que nasceu. Havia saído da África, mas a África nunca saiu dele. Com o fim do apartheid, voltou a residir em Cape Town, se bem que vive a excursionar.
No ano passado, lançou pelo selo Sunnyside, Mukashi. O que chamou-me inicialmente a atenção foi o título. A palavra, traduzida como “Once upon a time”, pelo pouco da língua japonesa que conheço, significa “antigamente”. Não vem tanto ao caso a discussão, mas sinto nos temas algo de “ancestralidade”, uma busca pelas raízes. De certa forma, a música de Ibrahim sempre foi essa busca, a de sua ancestralidade africana, mesmo longe da terra natal.
A “orientalidade”, ou a referência ao utilizar uma palavra japonesa, está presente no piano calmo, reflexivo, nas flautas executadas por ele e por Cleave Guyton, e nos sons do violoncelo. Em muitas faixas apresenta-se apenas o seu piano. Quer uma amostra?
Ouça The Stars Will Remember.
Ouça Mukashi, a música título.
Veja uma apresentação de Ibrahim, no Festival de San Sebastian.

Guen, Mukashi me lembrou de Mal Waldron que conhecemos em SP, talvez porque ele falava japones!
ResponderExcluirTakashi, você que é mais japonês que eu, “mukashi” é “antigamente” mesmo?
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