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| Capa de Secret of the Wind |
A obsessão é o motor dos deprimidos. A esmo, resolvi ouvir algo que quase ou nunca tinha ouvido. Assim, cheguei a Elisabeth Kontomanou. Passei o dia ouvindo os quatro álbuns que eu tenho dela: Waitin’ for Spring (2006), Brewin” the Blues (2008), Siren Song (2009), e Secret of the Wind (2012).
Elejo Brewin’ the Blues e Secret of the Wind os meus preferidos. Nos dois é acompanhada só pro um piano. Chego à conclusão de que ela rende muito bem quando está acompanhada apenas pelo piano. Sinto curiosidade de conhecer Hands and Incantations, com Jean-Michel Pilc. Paciência: não tenho, mas posso deleitar-me com a francesa natural de Lyon cantando com Laurent Courthaliac e Geri Allen.
Começo com Brewin’ the Blues. O disco não é tão recente: 2008. Com esse sugestivo título, é uma coleção de canções que, imediatamente, remeterão a Nina Simone; ou a Billie Holiday, autora de versões definitivas de More Than You Know, Crazy He Calls Me e I’m a Fool to Want You, canções que estão nesse CD. Kontomanou tem uma voz firme com registro que só os negros possuem; aquela leve rouquidão (ou sutil aspereza) que dão as suas vozes um tom (ou alma?) muito particular. Apela, de vez em quando, para os vibratos, mas não a ponto de incomodar. Coutthaliac é um acompanhante discreto e dá substância à bela voz de Elisabeth. É um disco intimista, solene até, pela força de sua voz. A praia de Kontomanou não é o scat ou o suingue. É uma intérprete de afinação espetacular. Sua voz, mais para o grave, atinge os agudos com linearidade perfeita. Se surgiu a comparação, em algumas críticas, com Nina Simone, por que não Carmen McRae e Sarah Vaughan?
Elisabeth conheceu Geri Allen em um tributo a Billie Holiday, em Montreal, em 2010. Tempos depois estavam em um estúdio na Noruega gravando músicas para o álbum Secret of the Wind. Brewin’ é bom; este é ótimo. Três canções são spirituals ou hinos – Sometimes I feei Like a Motherless Child, Trouble of the World, Where You There. As restantes possuem ligações – umas mais, outras menos – com esse gênero. I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free, de Bily Taylor e Dick Dallas, é um gospel e foi gravada por Nina Simone, God Is Love, de Marvin Gaye, já “entrega” no título, Trouble of the World foi cantada por Mahalia Jackson, e A Quiet Place, pelo grupo vocal Take 6. Anteriores a 1960 são L.O.V.E. (Milt Gabler e Bert Kaempfert), If I Ruled the World (Leslie Bricusse, Cyril Ornadel), Nature Boy (eddie ahbez). Influi na impressão de que é um disco de spiritual o tom solene do canto de Kontomanou.
Geri Allen é considerada uma das melhores pianistas do jazz. Por alguma razão pouco racional, não gosto dela. Essa impressão ficou reforçada quando a vi em um festival de jazz em São Paulo. Fui porque um dos que se apresentavam com Allen era Andy Bey. Tinha curiosidade de ouví-lo por causa de dois discos: Ballads, Blues and Bey e Shades of Bey, pelo selo Evidence. Geri o “contaminou”. Hoje, gosto menos dele.
Em Secret of the Wind, Geri Allen é uma acompanhante discreta. Não nasceu para tocar com cantores, como Hank Jones ou Tommy Flanagan. E é bom nem comparar com as gravações de Tony Bennett com Bill Evans, ou de Hank Jones e Roberta Gamabarini. Allen parece tímida, até deslocada, de vez em quando. Mas não estraga. O que importa é a grande voz de Elisabeth Kontomanou e suas leituras dessas músicas.
Ouça L.O.V.E., a sexta faixa de Secret of the Wind.
Ouça I Put a Spell on You, que faz parte de Siren Song, gravado ao vivo, com orquestra.
Veja Elisabeth com a pianista Geri Allen em Everybody Was Born Free.

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