quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A força dramática de Elisabeth Kontomanou

O compositor e maestro Gustav Mahler, mais de uma vez, falou da sensação de “não pertencimento”, de sentir-se sempre um estrangeiro. Nasceu na Boêmia, quando a atual República Checa pertencia ao Império Austro-Húngaro. Era austríaco por causa disso, e judeu. Jovem, regeu em Budapeste e Hamburgo. Estabeleceu-se em Viena, que era o grande centro cultural no fim do século XIX. O desconforto pelo forte sentimento antissemita reinante no Império fez com que aceitasse o convite para reger a orquestra do Metropolitan, em Nova York, para logo depois ir trabalhar com a recém formada New York Philharmonic. Ficou pouco tempo, pois descobrira estar com uma doença grave.

Capa de Secret of the Wind
Quem não ficaria curioso em conhecer uma cantora cujo pai nasceu na República da Guiné e a mãe é grega? É uma mistura, no mínimo peculiar. Elisabeth Kontomanou: exótico, uma negra com nome grego. A miscigenação enriquece a humanidade. Kontomanou é francesa de nascimento, morou nos EUA e, desde 2007, reside na Suécia e canta em inglês. Como Mahler, pertence ao mundo.

A obsessão é o motor dos deprimidos. A esmo, resolvi ouvir algo que quase ou nunca tinha ouvido. Assim, cheguei a Elisabeth Kontomanou. Passei o dia ouvindo os quatro álbuns que eu tenho dela: Waitin’ for Spring (2006), Brewin” the Blues (2008), Siren Song (2009), e Secret of the Wind (2012).

Elejo Brewin’ the Blues e Secret of the Wind os meus preferidos. Nos dois é acompanhada só pro um piano. Chego à conclusão de que ela rende muito bem quando está acompanhada apenas pelo piano. Sinto curiosidade de conhecer Hands and Incantations, com Jean-Michel Pilc. Paciência: não tenho, mas posso deleitar-me com a francesa natural de Lyon cantando com Laurent Courthaliac e Geri Allen.

Começo com Brewin’ the Blues. O disco não é tão recente: 2008. Com esse sugestivo título, é uma coleção de canções que, imediatamente, remeterão a Nina Simone; ou a Billie Holiday, autora de versões definitivas de More Than You Know, Crazy He Calls Me e I’m a Fool to Want You, canções que estão nesse CD. Kontomanou tem uma voz firme com registro que só os negros possuem; aquela leve rouquidão (ou sutil aspereza) que dão as suas vozes um tom (ou alma?) muito particular. Apela, de vez em quando, para os vibratos, mas não a ponto de incomodar. Coutthaliac é um acompanhante discreto e dá substância à bela voz de Elisabeth. É um disco intimista, solene até, pela força de sua voz. A praia de Kontomanou não é o scat ou o suingue. É uma intérprete de afinação espetacular. Sua voz, mais para o grave, atinge os agudos com linearidade perfeita. Se surgiu a comparação, em algumas críticas, com Nina Simone, por que não Carmen McRae e Sarah Vaughan?

Elisabeth conheceu Geri Allen em um tributo a Billie Holiday, em Montreal, em 2010. Tempos depois estavam em um estúdio na Noruega gravando músicas para o álbum Secret of the Wind. Brewin’ é bom; este é ótimo. Três canções são spirituals ou hinos – Sometimes I feei Like a Motherless Child, Trouble of the World, Where You There. As restantes possuem ligações – umas mais, outras menos – com esse gênero. I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free, de Bily Taylor e Dick Dallas, é um gospel e foi gravada por Nina Simone, God Is Love, de Marvin Gaye, já “entrega” no título, Trouble of the World foi cantada por Mahalia Jackson, e A Quiet Place, pelo grupo vocal Take 6. Anteriores a 1960 são L.O.V.E. (Milt Gabler e Bert Kaempfert), If I Ruled the World (Leslie Bricusse, Cyril Ornadel), Nature Boy (eddie ahbez). Influi na impressão de que é um disco de spiritual o tom solene do canto de Kontomanou.

Geri Allen é considerada uma das melhores pianistas do jazz. Por alguma razão pouco racional, não gosto dela. Essa impressão ficou reforçada quando a vi em um festival de jazz em São Paulo. Fui porque um dos que se apresentavam com Allen era Andy Bey. Tinha curiosidade de ouví-lo por causa de dois discos: Ballads, Blues and Bey e Shades of Bey, pelo selo Evidence. Geri o “contaminou”. Hoje, gosto menos dele.

Em Secret of the Wind, Geri Allen é uma acompanhante discreta. Não nasceu para tocar com cantores, como Hank Jones ou Tommy Flanagan. E é bom nem comparar com as gravações de Tony Bennett com Bill Evans, ou de Hank Jones e Roberta Gamabarini. Allen parece tímida, até deslocada, de vez em quando. Mas não estraga. O que importa é a grande voz de Elisabeth Kontomanou e suas leituras dessas músicas.

Ouça L.O.V.E., a sexta faixa de Secret of the Wind.




Ouça I Put a Spell on You, que faz parte de Siren Song, gravado ao vivo, com orquestra.




Veja Elisabeth com a pianista Geri Allen em Everybody Was Born Free.

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