sábado, 19 de outubro de 2013

O último fã de Prefab Sprout

Paddy McCaloon, do Prefab Sprout, hoje
Na capa, um rapaz está montado na motocicleta e uma garota se aninha as suas costas. Um outro, agachado, faz pose levando uma das mãos ao queixo, e um quarto deixa visível apenas a parte de cima de seu corpo. O título do disco é Steve McQueen. Isso na Grã-Bretanha. Nos EUA, a família do ator, morto aos 50, vítima de um câncer no pulmão, proibiu e apenas lá chamou-se Two Wheels Good. McQueen adorava motocicletas, carros e velocidade.

Foi o primeiro álbum de Prefab Sprout a ser lançado no Brasil, pela Sony/Columbia, parte de uma coleção com novos nomes do pop, em 1985. O disco era bom mesmo. Dizer que ficaram populares aqui não deve ser verdade, mas os ingleses adoraram canções como Bonny, Desire As, Moving River e When Love Breaks Down. Pareciam simples, mas com produção de Thomas Dolby, eram obras sofisticadas.

Uma das melhores é When Love Breaks Down.




Steve McQueen era o segundo; o primeiro chamava-se Swoon (1984). Não era uma banda prolífica. Lançaram depois From Langley Park to Memphis. Este foi o que teve maior vendagem dentre todos eles, atingindo o quinto lugar nas paradas britânicas. Nos EUA, nunca forma tão populares. Depois foi a vez de Jordan: The Comeback, Andromeda Heights e, em 2001, The Gunman and Other Stories. Este último, bem recebido pela crítica, teve vendagem fraca. Nessa altura a banda se resumia a Paddy McCaloon e o irmão Martin McCaloon.

Paddy sofreu um problema que comprometeu-lhe a visão irreversivelmente. Lançou ainda um disco solo – I Trawl the Megahertz (2003) – , e depois, saiu de cena. Como desgraça pouca é bobagem, foi diagnosticado uma enfermidade no ouvido: além da audição comprometida, a outra consequência eram as vertigens.

Os fãs do Prefab Sprout – serão poucos depois de tanto tempo? – podem abrir sorrisos e a carteira. Foi lançado um novo álbum deles: Crimson/Red. Ou será dele? A “banda” agora se resume a Paddy. Toca todos os instrumentos.

Parece que o irmão Martin, Wendy Smith e Neil Conti não fizeram falta. Mesmo sem eles, Crimson/Red é puro Prefab Sprout. É que, no fundo, os outros componentes eram apenas os sidemen de McCaloon: as composições eram suas e era quem as cantava. Aquele pop elegante de concepção sonora sofisticada – está certo, tinha Thomas Dolby na produção –, a voz suave exalando juventude, tudo partia dele.

Se a voz continua a mesma, o mesmo não pode ser dito sob o aspecto físico. Nas fotos oficiais para o lançamento, vemos um senhor de longa barba e cabelos – também longos – prateados e costume branco, óculos escuros para proteger os olhos enfermos, segurando uma bengala de madeira. Em entrevistas recentes e em sua música, surgem sempre questões como a do declínio e da juventude. Em Adolescence, se pergunta: “Adolescência, para quê serve?”. Ou em The Old Magician? Nos versos iniciais canta: “O velho mágico entra no palco/ Sua performance não melhorou com a idade/ Observe o chapéu roto e luvas/ O ato cansado que ninguém ama.”

Confira The Old Magician.




É bem provável que Crimson/Red passe em branco pelos resenhistas americanos, mas os ingleses estão “babando”. Caroline Sullivan, do The Guardian, dá 4 de possíveis 5 estrelas. Outra publicação, a Mojo, também dá 4 estrelas.

Ouça Adolescence.



Grief Built the Taj Mahal. Preste atenção no arranjo.

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