segunda-feira, 4 de abril de 2011

Por que gosto tanto de Siboney?

Sem medo de ser feliz, entre as minhas “14 Mais” – essa referência é muito antiga e só alguns irão se lembrar que uma gravadora (a antiga CBS, se não me engano) lançava, semestralmente, um LP de vinil contendo as 14 preferidas ou melhores (era o que cabia em um LP) –, está a música Besame Mucho. João Gilberto cantou, os Beatles cantaram, informalmente, é certo, sem gravarem. Os boleros têm seus fãs incondicionais.

Quando a mexicana Consuelo Velazquez compôs Besame Mucho, era menor de idade – 15 anos, presume-se – virgem e nunca tinha beijado alguém. Tendo estudado piano desde criancinha, inspirou-se – é o que se diz – em uma peça do espanhol Granados: “Quejas, o la maya y el ruiseñor”, do ciclo Goyescas. Consuelo faleceu há seis anos, em 2005, com 84 anos. Besame foi composta em 1940. São 71 anos. Longa vida para um clássico.

Ernesto Lecuona é, por algumas semelhanças com o americano compositor de Summertime na formação musical, considerado o “Gershwin cubano”. Ambos transitaram entre os formatos do popular e do erudito. Nasceu em 1895 e veio a falecer distante da terra natal por conta da instauração do governo revolucionário de Castro, em 1963, e enterrado em terras americanas; e deve ser trasladado a Cuba após o fim do regime vigente. Pelo menos, é a vontade de Lecuona, registrada no testamento. O treinamento clássico no piano o levou a estudar brevemente com o franco-basco Maurice Ravel. Compôs música para teatro, cinema, além de peças eruditas para o piano; são cerca de 600 composições no total. Lecuona, porém, é um dos reis da época de ouro da música latina.

Apesar de israelense, Anat Cohen adora música latina
Há um contingente enorme de fãs do bolero, apesar de outro tanto de pessoas considerá-lo um gênero, usando termos que caíram em desuso, “brega”, ou “kitsch”. Mesmo para um público menos habituado ou que desconhece o bolero, que mal ouviram falar de Gregorio Barrios, Angela Maria, Lucho Gatica, ou Miguel Aceves Mejía, devem ter escutado clássicos como Malagueña, Besame Mucho e, menos, Siboney. Certamente terão pouco ouvido falar de intérpretes como Trini Lopez ou Concetta Rosa Maria Franconero. Os dois, americanos de nascimento, tinham origem hispânica e foram propagadores da música latina em terras ianques. Sei de um bocado de gente fã de ambos.

Veja como os tempos mudam. Na década de 1960, um boa-pinta de olhos meio puxados, cabelo armado com gumex, e sempre de violão em punho (os americanos puros preferiam uma arma), provocou frisson entre as moças no Brasil. Vários LPs de Lopez foram lançados pela CBS (atual Sony). Um de seus sucessos foi La Bamba. Gerações que não chegaram aos 40 anos, certamente, conhecem essa música, muito em razão do filme sobre a vida de Richie Valens, contemporâneo do astro seminal do rock, Buddy Holly.

Não ligo nem um pouco para a música La Bamba (foi gravada pela banda Los Lobos nos anos 1980), mas Siboney está entre as 14 Mais, como Besame Mucho. É obra que sobrevive e gerações recentes continuam a gravá-la. Ouça uma interpretação da clarinetista israelense – é isso mesmo – Anat Cohen. A paixão dela por música latina demonstra que a música desconhece fronteiras.



Ouça também no piano sublime do cubano Ruben González. É a minha preferida, pelo menos, por agora.



Não se pode esquecer da interpretação de Connie Francis. Essa é para você, amigo SK.

Um comentário:

  1. Muito interessante sua análise. Tenho 45 anos e, ainda que não perteca ao "meu tempo", aprecio boleros, rumbas e afins, desde pequeno. Adoro Siboney!

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