quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Esta Plena de Miguel Zenón

Alguém sabe o que é “Plena”? Quem pensou que é um gênero musical, acertou. A música das Américas está impregnada dos ritmos que vieram com os negros. Impossível imaginar a música norte-americana sem eles. Não teria existido o jazz, o blues, o rhythm’ blues, o soul, e outros gêneros populares. A salsa, a rumba e o samba originam-se dessa miscigenação cultural. Têm em comum o fato de terem surgido no meio da população menos abençoada pelas benesses do capitalismo. A “plena” é o gênero popular dos porto-riquenhos habitantes das áreas urbanas mais pobres.

Zenón, melhor sax-alto “Rising Star”
Miguel Zenón é porto-riquenho e reside nos EUA. Foi considerado o melhor “Rising Star” no sax alto pelos críticos da revista Downbeat. Conforme explica Zenón, desde que saiu de Porto Rico, fez uma “imersão” no jazz, estudando na Berklee School of Music e apresentando-se regularmente. O projeto de Zenón de compor uma peça voltada aos valores folclóricos locais de seu país recebeu aprovação e ajuda de custo da Fundação Guggenheim. No mesmo ano de 2008, Zenón foi um dos escolhidos pela MacArthur Fellows. São selecionados pela “criatividade, originalidade e serem pessoas capazes de contribuir para o futuro”. Reconhecimento é bom, ainda mais quando está incluído um pequeno prêmio de meio milhão de dólares na conta bancária. Esta Plena, quarto álbum de Miguel, pode ser considerado uma “consequência” desses estímulos. No álbum anterior, Jíbaro – que não ouvi –, esse interesse em “colocar” a música porto-riquenha no contexto do jazz já existia.

Nas notas internas do CD, Zenón explica que esse ritmo representa o elo entre “música” e “povo” em letras que retratam o cotidiano dessa população em forma de canções de protesto, patriotismo, amor e alegria. A letra de Ahora Sí, de Viento de Agua, de Juan “Jonsy” Martinez é uma apologia do gênero: “Yo no tengo nada en contra del merengue/ De la salsa, tampouco del rap/ Pero si me tocas mi ritmo de plena/ Yo te digo que esa me gusta más.”

Apesar da resistência de muitos puristas quanto à contaminação do jazz pela música latina, é um fato que remonta tempos bem antanhos. No caso brasileiro, o “fenômeno Carmen Miranda” e as personagens “brasileiras” criadas por Walt Disney, como o Zé Carioca, são exemplos dessa “interpenetração” cultural que vai acontecer com mais intensidade depois da Segunda Guerra. Dizzy Gillespie, que junto de Charlie Parker e Bud Powell, é um dos artífices do bebop, interessou-se pelos ritmos chamados afro-cubanos e os incoroporou. Outro músico importante para a disseminação dos sons latinos na América foi Mauro Bauzá. Originário de Cuba, nos anos 1930 tocou na orquestra de Chick Webb e foi onde conheceu o também trumpetista Dizzy. Ambos são figuras importantes no “contágio” de ritmos como a salsa, o mambo e o merengue na música americana. O “congalero” Chano Pozo, Mongo Santamaría, Pérez Prado, Machito e alguns não-latinos como Tito Puente (nasceu em Nova York é de origem porto-riquenha)  e o vibrafonista Carl Tjader foram músicos que ajudaram a moldar essa fusão no jazz, chamada de “latin jazz”.

Na ponta dessa “linha evolutiva” está Miguel Zenón, dentre outros. Antecederam-no músicos como Paquito D’Rivera, que fugiu das garras do ditador Castro; Chucho Valdés, fundador do Irakere – e filho do grande Bebo –; o pianista Gonzalo Rubalcaba, Arturo Sandoval; o panamenho Danilo Perez, Michel Camilo; e os conterrâneos porto-riquenhos, David Sanchez, Edsel Gomez (que os brasileiros devem conhecer pois morou dez anos aqui e tocou com Arismar do Espírito Santo e Chico Buarque, João Bosco, Cauby Peixoto e Paulinho da Viola) e Eddie Palmieri.

Esta Plena, lançado em 2009, foi considerado o terceiro melhor do ano no “58th Critics Poll” da revista Downbeat. Segundo a All About Jazz, é um disco de “performances memoráveis de cada um [dos músicos], composicão vigorosa e liberdade de improvisação”. A banda de Miguel é composta pelo excelente pianista panamenho Luis Perdomo, o baixista Hans Glawishnig e Henry Cole na bateria. Como se vê, a formação é jazzística. O lado “Puerto Rico” é a dos músicos locais no pandeiro (e outras percussões) e nas vozes. É uma mistura que não irá fazer o gosto de quem tem urticária a bongôs e atabaques. Mas bem ou mal, a música latina, principalmente, caribenha, está entranhada na música americana. E não é pelos milhões de imigrantes que vão à procura de melhores oportunidades de trabalho e qualidade de vida. É sim, por estarem contribuindo para o enriquecimento das linguagens musicais.

Assista ao making of produzido pela Marsalis Music, gravadora de Zenón.

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