terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O melhor disco da última fase de Johnny Hartman não saiu em CD

Johnny Hartman, Elvin Jones e Coltrane no fundo
Um jornalista, que chegou a ocupar os cargos mais altos, “chique no último”, como se dizia, no alto de sua autoridade, escreveu uma vez que John Coltrane & Johnny Hartman era o “disco do momento” em Nova York. Isso foi no fim do século 20. Não faz tanto tempo. Se ele e essas pessoas estavam “descobrindo” Hartman, estavam um pouco atrasados. Pode ter pesado que o álbum originalmente lançado em 1963, saiu pela primeira vez em formato CD em 1995. Esses moderninhos estavam, provavelmente, ouvindo esse clássico pela primeira vez.

O cantor, que um dia foi chamado de “Bronze Sinatra” nunca ficou efetivamente conhecido. Mas foi cultuado por muitos. Não era um cara bonitão como Billy Eckstine, que chegou a ser considerado um Sinatra negro. Este foi um verdadeiro ídolo em seu tempo e um talento para arregimentar grandes músicos para a sua orquestra.

Hartman, pelo contrário, nem unanimidade foi entre os apreciadores do jazz. Seus crítico diziam que não tinha suingue. É uma verdade, parcialmente. Cantores com registro de barítono têm esse problema. Mas cantando baladas, foi inigualável.

É possível que não tenha feito tanto sucesso como Billy Eckstine ou Arthur Prysock, nitidamente inferior a Hartman, ficando entre os de voz de barítono, em razão de ter sido uma pessoa de natureza mais retraída e alguém que nunca frequentou páginas de jornais e revistas fazendo o modelo do músico doidão, drogado ou alcóolatra, ou notado por sair com estrelas de Hollywood. Outra coisa que pesou, foi a falta de sorte com produtores e gravadoras.

Johnny e John
Bob Thiele, diretor da Impulse Records, tencionava gravar um álbum de John Coltrane com algum cantor. Sugeriu Sarah Vaughan. Este se mostrou reticente e falou de Hartman. Marcou, pois foi a única vez que Coltrane gravou com cantores e foi o disco de Hartman que mais vendeu. O crítico Will Friedwald classificou-o como o “Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”.


Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.




Ouça My One and Only Love, com a linda abertura com o tenor de Coltrane.




Aproveitando a onda do sucesso, gravou mais alguns álbuns para o mesmo selo. I Just Dropped By to Say Hello, lançado no mesmo ano, apresenta a mesma qualidade do que gravou com Coltrane. Charade, de Henri Mancini, é a primeira faixa. É, simplesmente, a melhor interpretação de todos os tempos da música tema do filme do mesmo nome, de Richard Donen.

Ouça Charade.




Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.

O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.

Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.

Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Clinton, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.

Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.

Não sei quanto tempo depois, um segundo CD referente ao filme de Clint, foi lançado. Em Remembering Madison County tinha mais sete números de Hartman, que eram exatamente as que faltavam para completar Once in Every Life. Quando comentei com o Carlos Conde, um expert do jazz, contou-me que “montou” o CD conforme o original. Não tinha pensado nisso. Fiz o mesmo.

Anos depois, acho que nem o Conde deve ter percebido, senão teria falado. Clint Eastwood tinha nos pregado uma peça. No primeiro CD, Easy Living é a terceira, I See Your Face Before Me é a de número 5, It Was Almost Like a Song a nona, e For All We Know, a décima primeira.

Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.

Vamos ouvir Wave. Preste atenção no “together”. Que voz!



Easy Living.



I See Your Face Before Me. Belíssimo.

3 comentários:

  1. Não concordo que, depois da Impulse, o disco Once in Every Life tenha sido o único bom. This One for Tedi por exemplo, é impecável.

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  2. Ouvir Johnny Hartman é envolvente ; ouvi-lo conhecendo sua história , é comovente.

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  3. Muito bom texto. Peço apenas licença para discordar de um ponto: "Once in Every Life" não foi o único disco bom de Johnny Hartman depois da Impulse.

    Talvez até tenha sido o melhor depois da Impulse, mas não o único bom.

    Reconheço que "Today" de 1972 e " I've Been There" de 1973 foram tentativas mais comerciais em que ele misturava canções do momento com standards, embora não desmereçam Hartman de modo algum. Sem contar que toda a geração dele estava tentando coisas assim nos idos de 1970.

    Mas "For Trane" de 1972 e "This one for Tedi" de 1980 são muito bons.

    This One's For Tedi , por exemplo, é lin‎do e de uma delicadeza enorme. A gravação de "That`s All" que está alí é definitiva.

    Outro discaço dele pós Impulse é

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