quinta-feira, 5 de julho de 2012

A sempre surpreendente Macy Gray


O disco se chama Covered. Bom, dá para adivinhar? Macy resolveu fazer o seu também. Compositores e intérpretes devem gostar de cantar músicas dos outros. Covers, quando interpretados por gente competente, são sempre interessantes. Quando Cee LoGreen canta Reckoner, de Radiohead, experimentamos sensações diversas das que temos ao ouvir Thom Yorke. Covers são interessantes porque intérpretes (digo, os bons) revelam outros ângulos, outras visões, e em alguns casos são leituras tão diferentes que ficam irreconhecíveis e nem por isso, deixam de ser boas. São os casos das interpretações de Cat Power em dois discos essenciais: The Covers Record (2000) e Jukebox (2008). Abre o primeiro com uma versão “mais pessoal impossível” de (I Can’t Get No) Satisfaction. Em Jukebox, Power se superou com interpretações belíssimas de Angelitos Negros, Metal Heart, Don’t Explain e, destaque dos destaques, New York, manjadíssima na voz de Frank Sinatra. (sobre Jukebox e Cat Power, leia http://bit.ly/JGkGF2, http://bit.ly/I5untw)

Macy Gray lançou On How Life Is em 1999. Emplacou pelo menos um hit: I Try. The Id, seu segundo álbum não vendeu muito nos EUA (sempre vendeu mais na Grã-Bretanha do que no país natal), mas era muito bom. Dona de voz personalíssima, um tanto parecida à de Pato Donald, aquele dos desenhos da Disney, com visual diferente, meio neo-hippie, chamou atenção da crítica e de um público meio-cansado de cantoras bonitinhas e assépticas. No meio masculino nunca deixou de existir o doidão, o alcoólatra, o marginal, o misógino expondo-se em baixarias públicas. O modelo, para as mulheres, sempre foi o de maior recato, sem que isso significasse que tinham condutas impolutas. Veja-se o caso de Whitney Houston, três anos mais velha que Gray: por trás de toda aquela maquiagem e penteados impecáveis, enfiava o pé na jaca e em uma dessas, o coração não suportou. Macy, pelo que dizem, também, enfiava o pé na jaca e, à boca pequena, surgiam comentários aqui e acolá, mas nada comparado ao comportamento de uma Janis Joplin. Esse lado um pouco fora da curva, e o fato de fugir dos estereótipos físicos costumeiros (não sendo modelo de beleza “Elisabeth Arden” e meio gordinha), tornava-a mais interessante do que uma Celine Dion ou Mariah Carey; e com uma voz muito diferente.

O culto às celebridades banalizou as baixarias. Estranhamente, tornou-se um valor a ser exibido. Qualquer um vira celebridade sendo flagrado fazendo sexo na praia, deixando um pedaço do seio aperecer, mostrando as celulites, sendo filmada, e depois, disponibilizada no YouTube fazendo coisas que mamãe dizia que só podiam ser feitas depois do casamento e em privado. Virou um circo romano em que o público ficava esperando, avidamente, a derrocada inexorável de Amy Winehouse, por exemplo.

Macy lançou três discos de 1999 a 2003. Depois, soltou mais dois em hiatos significativos (2007 e 2010) até esse de covers, neste ano. Neste álbum, canta Annie Lennox (Here Comes the Rain Again), Radiohead (Creep), Yeah Yeah Yeahs (Maps), Arcade Fire (Wake Up), Nothing Else Matters (Metallica), e Colbie Caillet (Bubbly). São conhecidas e Macy continua “the great” (entre os números musicais incluíram alguns esquetes, diálogos, à exceção de um que é outra coisa, entre Macy e um interlocutor; em um deles, Macy fica dizendo como deve ser anunciada como que estivesse em uma entrevista de rádio ou TV. e é algo como “the amazing and glamorous and gigantically genius Macy Gray”; engraçadíssimo). É um disco muito bom, até para aqueles que torcem seus narizes por “versões”.

Reckoner, por Gnarls Barkley



Radiohead canta Ceremony, do Joy Division.



Macy Gray canta Creep, de Radiohead, que está no álbum Covered.



Depeche Mode canta Joy Division (Love Will Tear Us Apart)



Maravilhosa também é Here Comes the Rain Again, cantada originalmente por Annie Lennox. O “colchão” de teclados, uma marcação de baixo e a voz “Pato Donald” de Macy. Perfeito.




Wake Up, de uma das melhores bandas surgidas nos últimos anos – Arcade Fire. Veja e ouça.



Ouça a versão de Macy Gray. Não tem a dramaticidade da original, ou melhor, tem outra dramaticidade. Meio Tarancón. Ganha um doce quem se lembrar deles?



Uma das boas faixas de Covered é Nothing Else Matters, do Metallica.



A original.



Macy Gray canta Bubbly, com Idris Elba.

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