segunda-feira, 9 de maio de 2011

A propósito do dia das mães e algo do filme israelense Segredos Íntimos

É dia das Mães. Não é a primeira vez e nem será a última em que vou lembrar do clássico Cuidado com a outra. Transcrevo aqui a letra: Vou abrir a porta/ Mais uma vez/ Pode entrar.../ É dia das mães,/ Eu resolvi lhe perdoar/ Eu vou abrir.// Vou abrir a porta/ Mais uma vez/Pode entrar.../ É dia das mães,/ Eu resolvi lhe perdoar.// Deus me ensinou/ Praticar o bem/ Deus me deu essa bondade/ Vou abrir a porta pra você entrar,/ Mas não demore que a outra pode lhe encontrar.”

Descuidadamente – nos últimos tempos, menos – passava o dia cantando, sem mais nem porquê. Isso não quer dizer que seja bom cantor. Essa, de Nelson Cavaquinho, é uma do meu repertório de costume; as outras são Atiraste Uma Pedra, de Herivelto Martins, Mora na Filosofia, de Monsueto, Na Batucada da Vida, de Ary Barroso… paro por aqui; tem muito mais; é só pra passar o espírito das escolhas. O fato de lembrar delas tem a ver com as situações. Nada como essa efeméride para cantá-la, apesar de fora de contexto com a data.

Segredos íntimos. Não conhecia a atriz Ania Bukstein nem o diretor Avi Nesher; Fanny Ardant, sim. O filme cujo título original é Hasodot foi exibido no Brasil, mas não lembro dele. Foi uma boa surpresa tê-lo visto em DVD no domingo do dia das mães. A única relação que tem com a data é por Anouk (Fanny Ardant) ter em sua casa uma foto com os dois filhos em um porta-retratos.

Anouk fora casada com um francês (com quem teve os filhos) e os abandona para ficar com um artista plástico israelense. No momento da história do filme é uma mulher adoentada, que precisa de cuidados, depois de ter saído da cadeia acusada de ter matado o amante.

Naomi (Ania Bukstein) é filha de rabino e está prometida em casamento. Com a morte da mãe e, ciente do que lhe está destinado e com o propósito de adiá-lo, convence o pai de que deve ir para um seminário estudar a religião judaica.

Lá, divide o quarto com mais três jovens. Uma é uma francesa, aparentemente, enviada pela família (rica) para “regenerar-se”. Naomi é a única que demonstra ter maiores conhecimentos sobre o judaísmo. As outras caíram de paraquedas, como se diz por aí.

Naomi se aproxima de Michal (Michal Shtamler) – ou Michelle, seu nome correto – por uma circunstância. A escola tem um programa de assistência aos necessitados. Ela e Michal (por falar francês) são incumbidas de levar alimentos a Anouk (que não fala hebraico).

Não é a minha intenção contar a história do filme. Mas, para citar algumas passagens que considero interessantes, foi preciso esse relato mínimo.

A primeira visita. As duas vão levar alguns mantimentos para Anouk. Quando se sentam à mesa, a francesa acende um cigarro. Michal pergunta: “Mas você pode fumar?” Fala que o médico, depois de saber que, além do problema cardíaco, estava com câncer, disse-lhe que podia tudo. “Quando Deus se zanga, ele se zanga mesmo.”

“Dizem que o tempo cura todas as feridas,mas para mim, o tempo é cruel. Agora que a minha hora quase chegou, pensar em morrer sem o perdão de Deus apavora-me. Se apenas alguém pudesse me ajudar a conhecer Deus, a senti-lo, a falar com Ele… talvez você, você poderia me ajudar.” É o que Anouk diz olhando para Naomi.

Quando estão voltando, Michal diz que “ela procura uma reparação, um modo de perdoar-se a si mesma”. “Isso é entre ela e Deus”, retruca Naomi. A francesa quer ajudar sua conterrânea enquanto a outra reluta.

Os ritos. Seguir os ensinamentos da cabala virou moda depois da cantora Madonna ter virado uma das adeptas. Talvez – e partindo de um filme feito por alguém que é ligado umbilicalmente à cultura judaica – haja uma crítica a essa moda numa fala de Naomi: “Ultimamente todos viraram peritos em cabala. Para usar esses livros, precisa-se de domínio total.” Ouvi falar de cabala pela primeira vez quando li O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, e isso aconteceu há muito tempo. Mesmo assim, pouco sei sobre o assunto, e o que aqui se relata é o que está no filme.

Michal quer um “tikun”, termo cabalístico que representa “uma espécie de redenção antes da morte”. Para convencer a amiga a participar diz que não quer dividir o oceano, “quero apenas fazer uma boa ação.”

Nas palavras de Naomi, o Rabam cita quatro estágios do arrependimento:
1. “O pecador deve abandonar seu pecado”;
2. “Deve expulsá-lo da mente”;
3. “Confissão verbal”; e
4. “Aceitação do destino”

No primeiro ritual, purificam-se na água














Amor de mãe. Naomi percebe sobre uma cômoda um retrato de Anouk com os dois filhos. “São meus filhos. Eles não querem me ver. Eles me odeiam. Tento fazer contato com eles há anos. Escrevo cartas para eles; mas nada. Os filhos não compreendem o amor de uma mãe, mesmo o amor de uma mãe ruim. Nenhum amor se compara a esse.”




A revelação do amor. O comprometimento de ambas em ajudar Anouk fortalece a ligação. Naomi, quando vai visitar o pai, leva a amiga. Ao arrumar a cama (é uma daquelas em que se puxa uma “gaveta” e se transforma no que se chama de bicama) diz que parece coisa de amiguinhas. A proximidade física transforma-se em atos de intimidade. Ao acordar, Michal afasta a mão que a abraça em seu sono.

Ao seu repentino afastamento, Naomi responde com citações sagradas: “Não há nada escrito dizendo que é proibido. Eu verifiquei. […] A lei bíblica, especificamente, proíbe o sexo entre homens. Entre homens, não entre mulheres. Porque, com os homens seria ‘derramar a semente deles’, que Sage Hashi diz que é ‘uma ofensa a Deus’. Mulheres não têm ‘semente’, portanto não é proibido”.

Pensando bem, para um filme que trata de religião, é até subversivo, ou libertário, pelo menos

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