sexta-feira, 2 de maio de 2025

Nana Caymmi e uma historinha com amigos

Apesar das diferenças de idade, ela e ele, mais de vinte anos mais novo que eu, ficamos muito amigos e mantivemos por alguns anos uma forte amizade, mesmo fora do trabalho. O que nos uniu foi que tínhamos muitos interesses em comum. A primeira aproximação foi com ele. Como ouvia música em qualquer momento, tinha uma caixinha de som e ficava trabalhando embalado pelo jazz. Ele veio puxar uma conversa porque eu estava ouvindo John Coltrane, se não me falha a memória. 

Com ela, lembro que nossa primeira conversa foi sobre cinema. Assistia tudo, conhecia muito, adorava Audrey Hepburn em “Boneca de Luxo” (“Breakfast at Tiffany’s, 1961), de Blake Edwards. Amava também Diane Keaton e Woody Allen. Apesar de ter menos de 30 anos na época, em vez de filmes contemporâneos, tinha predileção pelos clássicos americanos das décadas de 1950 e 60. Tínhamos outra predileção em comum, os discos de Eydie Gormé cantando boleros, que, aliás, ele detestava e achava muito brega. Adorávamos também o álbum “Lágrimas Negras” de Bebo Valdés e o espanhol El Cigala. Esse ele odiava mais que a vida. Em casa, quando coloquei o vídeo, ele, num ataque de ira, tirou o DVD e disse: “Isso vocês não vão ouvir!”. Aí colocou “Pulse”, do Pink Floyd, que ele adorava.

Passamos a fazer coisas juntos. Como eu tenho quase todos esses clássicos, os discos e filmes em DVD, muitos dos encontros aconteciam na minha casa. Eu fazia jantares ou lanches e bebíamos bem. Eu e ela tínhamos uma preferência especial pelas “torch songs”, que hoje podemos classificar como “sofrências”, mas por favor, não nos confundam com fãs de música sertaneja. Daí a razão de gostarmos especialmente do estilo “esganado” de cantar de El Cigala.

É aqui que Nana Caymmi entra na história. Um dia saímos nós três e o Ricardo, que não tinha quase nada em comum com a gente. Fomos no meu carro ao restaurante. Na época, tinha um aparelho de MiniDisc, que hoje nem mais existe. Tinha o costume de fazer seleções temáticas para ouvir no trânsito – playlists, para usarmos a expressão atual. Na volta do almoço, começa a tocar “Boca a Boca” (Milton Nascimento, Fernando Brant). Entramos no estacionamento, desliguei o carro, e ficamos ouvindo a música até o fim. Nós três, emocionados, em silêncio, estávamos com os olhos marejados. Saímos em silêncio, sem trocarmos uma palavra. O Ricardo não deve ter entendido nada.

Ouça o meu playlist com a Nana. As minhas preferidas são da década de 1970.


terça-feira, 25 de março de 2025

O paraíso de Paul Motian

A primeira vez em que Paul Motian me chamou atenção foi em um disco de Keith Jarrett. Nos anos 1970, o pianista formou um quarteto de respeito, com Dewey Redman (saxofone), Charlie Haden (contrabaixo), Motian (bateria). Uma amiga trouxe El Juicio (Atlantic, 1973), alguns anos antes de o americano ficar conhecidíssimo, pelo menos no Brasil, com seu solo The Köln Concert (ECM, 1975). 

A batida de Motian era diferente, cheio de pausas, um ritmo que não associaria ao mainstream. Tomei gosto pela música instrumental e meus primeiros interesses se direcionaram ao jazz-rock, ou jazz progressivo, como você preferir. Minhas primeiras aquisições foram I Sing the Body Electric e Mysterious Traveller, do Weather Report, No Mystery, da banda de Chico Corea, Extrapolation, de John McLaughlin, e Third, da banda inglesa Soft Machine. Keith Jarrett entrou na história porque tinha tocado com Miles Davis, outra referência seminal. Um amigo de meu pai trouxe Agharta, Get Up with It e Big Fun, do trompetista de quem fã mor. Cheguei a ter cerca de 70 LPs dele. Depois de conhecer seus discos de sua fase elétrica, comprei os da década de 1960, quando a banda era com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. “Regressivamente” fui comprando os seus primeiros gravados na Prestige Records. Em algum momento Bill Evans entrou na história, por causa de Kind of Blue. Esse maravilhamento pelo estilo de Evans fez com que comprasse tudo o que encontrava dele. Em Sunday at the Village Vanguard (Riverside 1960), além de impressionado com o baixista Scott LaFaro, descubro que baterista era Paul Motian. Pois então: era mainstream e ao longo do tempo foi criando o “estilo Motian”.

Vi duas vezes, o que considero um privilégio, como morador do Brasil, uma vez aqui em São Paulo, e outra no Village Vanguard, Nova York, apresentando-se com Joe Lovano e Bill Frisell. Os três têm registros na ECM, JMT e Winter & Winter.

Além do trio, o que acho mais me interessou foram as formações heterodoxas, em que “dobrava” alguns instrumentos, como dois saxofonistas, dois ou três guitarristas. Alguns fui conhecer justamente em seus álbuns: Kurt Rosenwinkel, Ben Monder, Steve Cardenas e Jakob Bro.

Nessas formações “dobradas” acho especialmente bons Paul Motian on Broadway III (JMT, 1993) e Garden of Eden (ECM 2006). No primeiro, os dois saxofonistas são um exemplo da arte da improvisação. A riqueza das linhas sonoras de ambos em seus solos são para pensarmos que paraísos existem, com sonoridades transcendentais. Sempre tive uma admiração imensa por Lee Konitz. Tocou com deus e o mundo. Ele é o mestre da beleza calma, apolínea no sue modo de tocar. Joe Lovano é um tenorista e soprano que foi revelado um pouco mais tarde. Quando passou a ser mais conhecido já tinha uma experiência que o jogou no topo das listas dos melhores. É outro com uma sofisticação enorme nos seus solos.

No “jardim do paraíso”, Motian escolhe um repertório com composições próprias, de Steve Cardenas, um dos guitarristas – os outros são Ben Monder e Jakob Bro –, de Chris Cheek, um dos saxofonistas – o outro é Tony Malaby –, clássicos de Jerome Kern, Charlie Parker e Charles Mingus, Thelonious Monk. Este último foi gravado pelo baterista de origem armênia em muitas ocasiões. Aliás, é de se pensar nas semelhanças de estilo. São duas sonoridades que se distinguem pelos seus modos idiossincráticos de executarem seus instrumentos.

Ouça Garden of Eden.


terça-feira, 11 de março de 2025

Algo sobre “Um completo desconhecido” e sobre Bob Dylan

1. O primeiro álbum que tive de Bob Dylan foi The Freewheelin’. Era um dos LPs que encomendei para os meus pais. Minha geração é um pouco posterior à dos que já o conheciam. O primeiro LP que comprei na vida foi “Led Zeppelin III”. Acho que os seguintes foram (Pictures at an Exhibition, de Emerson, Lake & Palmer, e Fragile da banda Yes, possivelmente em 1972 ou 1973. Com o passar do tempo, fui atrás de artistas de outras gerações de que falavam, como Beatles, Rolling Stones etc. Foi assim que cheguei em Bob Dylan.

2. Antes de entrar em Arquitetura na USP, fiz seis meses na FAU-Santos. Tinha 18 anos e era a primeira vez que saía da casa dos meus pais. Dividi um pequeno apartamento na Ponta da Praia com um amigo que, por meio de outros, fiquei conhecendo na época do vestibular. Gastava todo o dinheiro da mesada comprando LPs, tinha uma quantidade considerável com 17 anos. Levei alguns e o meu equipamento, que era constituído de um Sansui, um toca-discos Elac e um par de caixas Polivox. Como morávamos em um apartamento que hoje seria chamado de estúdio (naquele tempo chamava-se kitnet), nossos vizinhos deviam ouvir o que escutávamos. O nosso de parede, um cara alto, meio calvo, uns dez anos mais velho, um doidão, descobrimos já de cara, consumidor de algumas drogas ilícitas, bateu na porta bem quando ouvíamos Bob Dylan. Entrou dizendo que era seu ídolo, sem cerimônias foi aumentando o som. O que eu quero dizer é que a diferença de idade era a razão de seu entusiasmo. Era um cara que viveu o surgimento de Dylan na música. Nós, mais jovens, tivemos a iniciação ouvindo o rock progressivo de Emerson, Lake & Palmer, Genesis, Yes e King Crimson.

3. Ao assistir ao filme Um completo desconhecido (2024), direção de James Mangold, fiquei com vontade de fazer um registro. Nunca li alguma biografia ou autobiografia de Dylan, portanto, o que escrevo está baseado no que vi e pode não corresponder exatamente com a a realidade.

4. Minha maior curiosidade, quando vi a capa de The Freewheelin’ pela primeira vez era pela mulher que  caminhava sorrindo abraçada a ele. Chamava-se Suze Rotolo. Digamos que me senti uma paixão platônica e um pouco de inveja. Estranhei que no filme se chamasse Sylvie Russo. Pesquisei e descobri que o próprio Dylan pediu ao diretor que trocasse seu nome. Pelo filme conclui-se que era uma moça culta, mais do que ele, politicamente engajada, ao contrário do “caipira” nascido em Duluth, Minesota. Porém era atormentada pela relação dele com Joan Baez. Teria sido mesmo?

5. O título da crítica de Inácio Araújo” na “Folha de S.Paulo” é: “Filme de Bob Dylan começa bem, mas se perde em burocracia”. Fiquei até receoso de assistí-lo. Ainda bem que não foi o suficiente para aplacar a minha curiosidade e posso dizer que adorei. Talvez soe um pouco esquemática e imagino que o diretor tenha dado mais ênfase no início de sua carreira, sua idolatria por Woodie Guthrie, seu maior ídolo e referência. Ao optar por passar a usar a guitarra elétrica, chocou um universo de amantes do folk, gênero com que ficara famoso. Foi um choque ele entrar com uma formação diferente no Newport Folk Festival. Era uma época de grandes mudanças estruturais, com o movimento civil, o flower power na Califórnia, drogas, amor livre, invasão britânica com os Rolling Stones e os Beatles e Jimi Hendrix fazendo uma revolução com sua guitarra elétrica em Londres e depois em sua terra natal. Dylan era um cara desses caras do “the times they are a-changin’”. Um marco dessa transformação é a apresentação de Bob Dylan, em 1966, no Royal Albert Hall, Londres, em que a primeira parte é acústica seguida pela elétrica.

6. No Brasil, logo depois, aconteceria algo parecido. Em 1967, no Festival de Música Popular da TV Record, Caetano Veloso resolve apresentar sua música Alegria, Alegria com a banda de rock argentina The Beat Boys. Foi acompanhada por vaias, mas uma parcela do público adorou a novidade. Aconteceram até passeatas em favor da pureza da música brasileira e contra a influência americana, com participantes conhecidos como Elvis Regina e até Gilberto Gil, que logo depois se renderia às guitarras elétricas e influências alienígenas. 

4. Desde sempre tive curiosidade de saber quem era a mulher que caminha com Bob na capa de The Freewheelin’. Estranhei de que no filme chama-se Sylvie Russo, quando na vida real chamava-se Suze Rotolo. No filme Sylvie é uma namorada atormentada pelo ciúme que tinha de Joan Baez. Pelo que sei, Dylan e Baez tiveram uma relação tumultuada que durou um tempo, cheia de idas e vindas. Uma primeira sincronia: dias depois que vi o filme, assisti ao documentário que Jorge Bodansky fez sobre a artista plástica Eleonore Koch (As cores e amores de Lore), e ela cita Joan Baez como sua cantora preferida.

5. Masters of War. A crise dos mísseis em Cuba, em outubro de1962, quando foi descoberto que os soviéticos estavam construindo bases de lançamentos de artefatos nucleares em Cuba, foi a “maior guerra atômica que não aconteceu”. Para mim que era uma criança e nascido no Brasil tal crise passou em branco, mas lembro que meus pais estavam acompanhando por meio da revista americana “Life”, que minha mãe comprava direto. A 40 quilômetros de Passos, estava sendo construída a usina hidrelétrica de Furnas. Era uma legião estrangeira trabalhando lá, indianos, americanos, filipinos, japoneses, daí a razão da facilidade de se encontrar revistas americanas. Minha mãe não sabia nada da língua inglesa, mas não perdia um número da “Life” e nem das brasileiras “Cruzeiro”, “Manchete” e a “Fatos & Fotos”, a versão “Life” nacional, com pouco texto e profusão de imagens. 

Foi um fato marcante na história do mundo ocidental. O discurso de John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, deflagrou pânico total no povo americano, com prateleiras de supermercado esvaziadas pelo medo do confronto, caos e gente improvisando ou construindo abrigos. No filme são reproduzidas registros da época. Parece que serviu de inspiração para Bob compor Masters of Wars (é uma das faixas em The Freewheelin”). 

Coincidentemente, a crise dos mísseis é narrada em Lições (Companhia das Letras, 2022), de Ian McEwan, que estou lendo por esses dias. Adoro essas sincronias. Roland um pré-adolescente apaixonado por sua professora de piano, está pouco ligando para a crise, ao contrário dele, razoavelmente mais velha que ele. Roland vai à casa de Myriam, a professora, e transam. Depois, liga o rádio enquanto limpa a casa. A notícia era de que a crise tinha acabado. Krushev ordenara a retirada dos mísseis em Cuba. Na cabeça de todos Kennedy tinha salvado o mundo. 

Bom, acho que é isso. Estou ouvindo The Freewheelin’ agora. Seu primeiro disco autoral é uma série de obras-primas. Começa com Blowin’ the Wind, um clássico que até o nosso Eduardo Suplicy cantou, se bem que desconfio que em razão de ser fão de carteirinha de Joan Baez. A segunda é uma das minhas preferidas de todos os tempos: Girl from the North Country. Devido à minha dificuldade de prestar atenção em letras de música, não faço a mínima ideia do que se trata e até hoje não sei quem é a tal “girl from the north country”. E aí vem Masters of War, que potência de música! Em vez de mais comentários, ouça o LP.